O batelão do rio Limpopo
Em agradável viagem, quase sem dar-se conta,Marcela e Ricardo haviam chegado já à margem direita do Limpopo,o maior rio da África austral depois do magestoso Zambeze.Vem das montanhas do Matopo, cerca de Joanesburgo e anda 500Km até chegar à barra de Inhampura, no Índico.É uma monstruosa serpente que, quando nas cheias se espraia, faz das planícies que o bordejam um autêntico mar.Este rio foi testemunha, por volta de 1895, de muito arrojo e bravura de vários oficiais da Armada Portuguesa.Está muito ligado às guerras da Pacificação, foi teatro de muitas escaramuças, pois o Kraal de Gongunhana tinha nesta barreira aquática um fosso difícil de transpor.Nos princípios de Setembro de 1963, data em que Marcela e Ricardo chegaram às suas margens, ainda não existia a actual ponte, pelo que tiveram de atravessar o rio no velho batelão.Marcela ficou empedrada de susto quando viu Ricardo meter o jip ,de um salto, dentro do batelão que os levaria à outra margem onde ficava pouco adiante a cidade do Xai-Xai, apelidada pelos colonos de João Belo.Completa a carga, o batelão foi posto em movimento pelo impulso braçal dos negros que, de tronco nu, o suor a escorrer copiosamente, puxavam os cabos que o faziam singrar,lento e magestoso, sobre as águas lodosas e profundas do rio.E durante este vigoroso esforço de autênticos barqueiros do Volga, eles ainda tinham ânimo para bailar, tripudiar ,entoando cantilenas alusivas aos passageiros em que vislumbravam a possibilidade de obter uns cobres de saguati (gorgeta).Desta vez a inspiração veio-lhe do casal Marcela e Ricardo.Eles tinham uma intuíção, um faro incrível para detectar aqueles cuja generosidade lhes poderia dar uma ajudinha pecuniária que demonstrava bem a sua esperteza e sagacidade psicológica. Num ritmo frenético,iniciaram assim a sua salmodiada melopeia:
Bom dia minha sinhora/Bom dia sinhô patrão/Bamo lá,bamo imora/Navigá no batelão/Toda a noite, dia inteiro,/Negro neste combate/Ma ganha pouco dinheiro,/Pricisa de saguate!
Tudo isto era inédito e encantador para Marcela, neófita em África.Pegou na bolsa e deu um generoso óbolo aos barqueiros negros que esbugalharam os olhos com um saguati tão abonado e se desfizeram em angulares zumbaias de mesureira gratidão.
