Thursday, September 3, 2009

O batelão do rio Limpopo

         

 

 Em agradável viagem, quase sem dar-se conta,Marcela e Ricardo haviam chegado já  à margem direita do Limpopo,o maior rio da África austral depois do magestoso Zambeze.Vem das montanhas do Matopo, cerca de Joanesburgo e anda 500Km até chegar à barra de Inhampura, no Índico.É uma monstruosa serpente que, quando nas cheias se espraia,  faz das planícies que o bordejam um autêntico mar.Este rio foi testemunha, por volta de 1895, de muito arrojo e bravura de vários oficiais da Armada Portuguesa.Está muito ligado às guerras da Pacificação, foi teatro de muitas escaramuças, pois o Kraal de Gongunhana tinha nesta barreira aquática um fosso difícil de transpor.Nos princípios de Setembro de 1963, data em que Marcela e Ricardo chegaram às suas margens, ainda não existia a actual ponte, pelo que tiveram de atravessar o rio no velho batelão.Marcela ficou empedrada de susto quando viu Ricardo meter o jip ,de um salto, dentro do batelão que os levaria à outra margem onde ficava pouco adiante a cidade do Xai-Xai, apelidada pelos colonos de João Belo.Completa a carga, o batelão foi posto em movimento pelo impulso braçal dos negros que, de tronco nu, o suor a escorrer copiosamente, puxavam os cabos que o faziam singrar,lento e magestoso, sobre as águas lodosas e profundas do rio.E durante este vigoroso esforço de autênticos barqueiros do Volga, eles ainda tinham ânimo para bailar, tripudiar ,entoando cantilenas alusivas aos passageiros em que vislumbravam a possibilidade de obter uns cobres de saguati (gorgeta).Desta vez a inspiração veio-lhe do casal Marcela e Ricardo.Eles tinham uma intuíção,  um faro incrível para detectar aqueles cuja generosidade lhes poderia dar uma ajudinha pecuniária que demonstrava bem a sua  esperteza e sagacidade psicológica. Num ritmo frenético,iniciaram assim a sua salmodiada melopeia:

Bom dia minha sinhora/Bom dia sinhô patrão/Bamo lá,bamo imora/Navigá no batelão/Toda a noite, dia inteiro,/Negro neste combate/Ma ganha pouco dinheiro,/Pricisa de saguate! 

Tudo isto era inédito e encantador para Marcela, neófita em África.Pegou na bolsa e deu um generoso óbolo aos barqueiros negros que esbugalharam os olhos com um saguati tão abonado e se desfizeram em angulares zumbaias de mesureira gratidão.

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Tuesday, September 1, 2009

Moçambique:Sete de Setembro

 

 

 

 

 

 

Kátia, recém-casada, com sérias apreensões viu partir o marido para o  teatro da guerra colonial de Moçambique, após uma breve lua de mel.
Entre o sobressalto de o perder e a saudade de o rever nos braços, fluiram dias cruelmente longos.O que ela nunca pensou é que esta ausência seria eterna!
Decorridos dois meses, recebeu em suas mãos trementes um aerograma do Quartel-General que em seu laconismo dizia:morto em combate o alferes Mário Lucena.Sentidos pêsames!
Resistiu a jovem viuva a uma dor inenarrável!Quis regressar a Portugal,mas a carência de transportes não lho permitiu fazer.
A situação de insegurança em que se vivia deu azo ao pânico que originou uma debandada geral.Daí resultou que não havia aviões que chegassem para tamanha evasão,para o escoamento de tal fluxo humano.
Sair daquele inferno de medos e incertezas era o supremo desejo de toda a gente! Foram vâs as expectativas de que o Governo estabelecesse uma ponte aérea eficaz para a soluão dum problema que afectava milhares de portugueses e que contribuiu para a desgrça de Kátia.Prestes a embarcar,depois de tão agónica e cruciante espera, foi apanhada no vórtice da cruenta hecatombe do Sete de Setembro, aziago dia de infernais pavores e de selvática carnificina, motivada pelo desnfreado racismo que culminou numa truculenta orgia de ódio incoercível,logo chegou a notícia do acordo de Lusaca.
Colhida por esse turbilhão de morte,por essa nova matança de Saint-Barthélemy, era uma das senhoras cujo jovem e formoso corpo se encontrava semi-nu num dos montes de cadáveres recolhidos pelas ruas de Lourenço Marques e empilhados no necrotério do hospital Miguel Bombarda.
Até onde pôde chegar, bom Deus, tão grande ferócia humana!
Foi diante deste terrífico espectáculo que chorou Joaquim Chissano num rebate incontido de compaixão humanitária.
Chorou o lider frelimista e chorariam as próprias pedras à vista de tanta hediondez!
Umas horas antes,aos gritos de pavor deta mulher e de tantas outras vítimas haviam ficado mudos os fusis lusos já ensarilhados na covardia e na desonra,pela criminosa ordemdos bandalhos militares e políticos que impiedosamente os haviam mandado silenciar…

Posted by Rorigo in 12:34:56 | Permalink | No Comments »