Sunday, December 13, 2009

Uma escola nova para um homem novo

 

É incontestável que o homem é um «animal político».Perante esta verdade é fatal que a novas concepções políticas correspondam novas concepções pedagógicas.Fez-se uma revolução política ,consequentemente tem de se fazer uma revolução cultural.Esta revolução implica uma luta entre o conservantismo e o progresso, entre o velho e o novo, implica uma luta ao nível da consciência e dos valores morais e culturais.(S.M)

Para se formar um homem novo,para se estabelecer um novo tipo de relações sociais entre os homens tem de se pôr em acção a teoria revolucionária que ,segundo Samora Machel,assenta essencialmente nas seguintes bases: 

Luta contra o conservantismo;luta contra os complexos; unidade do Povo na vigilância e no trabalho; militantismo de professores e alunos; democratização do ensino;liberdade de pensamento e acção.

É pois nestas coodenadas que assenta a educação revolucionária. Este tipo de educação está em guerra aberta com a educação tradicional do Povo em que« a superstição ocupa o lugar da ciência» e com a educação colonial,capitalista,despersonalizadora e alienante, na medida em que se pretendia fazerde cada moçambicano«um português de pele preta».

                                O conservantismo

O conservantismo e um fenómeno psíquico que resulta da formação de velhos hábitos.Consiste na tendência humana para manter o que é tradicional, mesmo sendo mau, como a superstição,o individualismo, o egoismo,o elitismo , o racismo etc.É o que Samora Machel chama «o peso da herança morta» do qual é necessário libertar as consciências.Tarefa difícil que não se faz automaticamente com a mudança das estruturas políticas. Depende duma longa e paciente cosciencilização das massas, do choque entre as forças progressistas e as contr-revolucionárias que, às vezes sinceramente, outras malevolamente, teimam em vestir-se por um figurino já ultrapassado.Daí que a libertação política tenha de ser concomitante com a libertação da consciência para que cada um de nós se refaça do ser social que havia sido destruído por um regimen político alienante dos mais sagrados direitos do homem-o regímen colonial fascista.

E já que agora somos «homens sem tranca na língua e peias na alma»,como disse o grande Miguel Torga; que somos membros duma colectividade consciente,vamos construir a Sociedade que desejamos:uma Sociedade nova onde todos sejamos pessoas e não membros dum rebanho.

                           Os complexos

Complexos são estados de espírito oriundos de recalcamentos psicológicos.São repressões involuntárias feitas pela consciência, resultantes de várioa factores,como a educação, o sexo, as convenções sociais, a raça,toda uma diversidade de vivências.

Foi Adler,filósofo alemão, quem primeiro nos falou dos complexos de superioridade e inferioridade. Segundo ele, todo o comportamento humano gira à volta destes complexos.Ou há dominssados ou dominadores.Os primeiros estão possuídos do complexo de inferioridade e os segundos do complexo de superioridade.

Ora se nós temos de construir uma Sociedade onde não haja dominados nem dominadores, nem senhores nem escravos, nem explorados nem exploradores,nem raças superiores nem inferiores,temos de dar duro combate a estes complexos. Eles bloquiam a confiança entre as pessoas, destoem a unidade do Povo,a capacidade de livre iniciativa, o trabalho de inter-ajuda,a oportunidadede aprendermos uns com os outros.

À escola cabe a principal tarefa da extirpação  desses complexos,os quais «impedem a aplicação do princípio justo de aprendermos uns com os outros para progredirmos em conjunto».(S.M.) Eles são o peso duma «mentalidade velha» que é preciso alijar.Eles são a causa da falta de abertura entre as pessoas ,são o cancro das relações sociais,geram o ressentimento e arivalidade,forjam o divisionismo e impedem a possibilidade de diálogo de igualpara igual,entre o pobre  e o rico,entre o culto e o ignorante.E ,coartando a livre iniciativa, impedem o progresso.Contra estes males há apenas um remédio:a unidade revolucionária dos que sabem e dos que aprendem.E aprendemos uns com os outros!

                            

                A unidade do povo e a educação

«A unidade é a nossa força principal. É a unidade que constrói e consolida a nossa Sociedade.» (S.M.) Unir e consciencializar o Povo,isto é,fazer com que o Povo interiorize alinha revolucionária é «uma tarefa devanguarda» que pertence a todos e em especial à escola. O Povo deve estar unido no trabalho e na vigilância.O Pvo unido jamais será vencido! Esta deve ser uma das preocupações primárias da educação.«É unindo-nos no trabalho que nos unimos realmente.Professores e alunos devem trabalhar lado a lado,em todas as tarefas porque na revolução não há grandes ou pequenas tarefas» (S.M.)

O trabalho é a fonte da riqueza do progresso e avigilância consiste na atenção constante às forças reaccionárias,à agressão idiológica da contra-revolução para que não voltemos à ignomínia do passado.São contra a unidade do Povo os divisionismos étnicos, culturais,linguísticos,tribais ou religiosos.Contra este divisionismo é preciso pregar a unidade moçambicana.É necessário que« a tribo morra para que nasça a Nação» .«No nosso ensino devemos fazer ressaltar a similitude de situações existentes entre toda a população moçambicana» S.M.). «Moçambique não é uma região determinada,uma povoação ou uma província, mas um país enorme com grande diversidade de situações que temos de assumir para sermos eficazes».(S.M)  «Nas nossas escolas ,nos bancos da aula,nas casas, nos refeitórios, na produção, devemos esforçar-nos em juntar continuamente os alunos e professores de regiões diversas,a fim de que a partir do convívio quotidiano se percam os reflexos regionais para se adquirir um sentimento e coconsciêcia moçambicanos» (S.M.)

A unidade consolida-se no esforço comum,no conhecimento mútuo, na camaradagem.Só estaremos unidos quando  nos compreendermos uns aos outros. Para isso temos de viver no seio do Povo,com o Povo e para o Povo!

             Democratisação do ensino

As escolas devem ser centros de democratização e não núcleos de elitismo priviligiado.Todo o cidadão tem direito à educação.Este é o princípio basilar da democratização do ensino cujo objectivo não deve ser outro senão servir as massas populares.

O método de terabalho que assegura efectivamente a democracia assenta no princípio de que devemos aprender uns com os outros.Os professores e alunos devem aprernder entre si e uns dos outros.A aprendizasgem consiste essencialmente numa troca de experiências.A aprendizagem baseia-se no trabalho colectivo para o progresso colectivo.«Não nos interessa terum aluno brilhante e 40 que não sabem, pois, por mais genial que seja  o primeiro,sozinho nunca poderá satisfazer as necessidades que temos.» (S:M.)

A educação baseia-se no esforço colectivo,na prática reveladora do que cada um é, na consciencialização do valor de cada qual  e das suas limitações, na crítica e auto-crítica  das nossas actividades.

A educação é um processo global onde os professores e alunos na sua escola não cumprem a tarefa exclusiva do aperfeiçoamento individual, mas de toda uma Sociedade nova através dum homem novo.«Aquele que estuda incarna a vontade e o progresso  de todo o Povo»-diz Samora Machel- pelo que a escola não pode viver dissociada do Povo, da linha política que o conduz e, daí,a necessidade de alunos e professdores serem militantes e combaterem pela vitória dos novos valores democráticos.A escola é um centro de democracia onde se deve preparar e ensinar o Povo para tomar o Poder.Nela se habilita o aluno para melhor vir a servir as massas e não servir-se delas parasitariamente.

 

  O militantismo de professores e alunos

Ser militante é ser participante.Se um professor é um «contrutor de mundos», um plasmador da Sociedade, tem não só de conhecer ,mas participar activamente nas novas teorias revolucionárias que devem enformar  a nova Sociedade.Por sua vez, os alunos,se devem ser os continuadores da rervolução, não lhe podem der alheias aquelas teorias.

«Ser militante como prfessdor, não consiste apenas em preparar correctamente as aulas ,explicar claramente a matéria e corrigir com justiça os exercícios.Evidentemente que isso faz parte da terefa do professor,mas não basta.Isso  também o fazem os professores burgueses animados de consciência profissional. Na sua essência o professor militante é aquele que ,pelo seu exemplo e pelo ensino,contribui para a formação duma nova mentalidade no aluno.O professor militante é para todos um ponto de referência,uma ilustração permanente do comportamento correcto.O professor militante aprende do aluno e sabe orientá-lo na síntese das experiências e libertação da iniciativa. O professor militante é um elemento activona prática do trabalho produtivo que mobiliza os recursos da Natureza e fornece novas ideias ao homem.O professor militante está consciente das suas limitações e abre-se à auto-crítica e à critica,incluindo a dos alunos.Ele possui no mai alto grau a consciência de pertencer à classe trabalhadora.É um combatente pela vitória dos novos valores,uma alavanca na libertação da inicia tiva criadora dos seus alunos.

«A definição do aluno como militante também será necessária.Embora a tarefa central do aluno seja a de estudar,,isso nada o distingue dum aluno burguês.A concretização dum aluno militante situa-se ao nível dos objectivos e métodos do seu estudo.O aluno militante ,ao estudar, cumpre uma tarefa que lher foi confiada pelas massas para as servir.Nele não pode existir a obsessão mitológica do diploma,a esperança dos altos salários e privilégios, a noção de que faz parte duma elite de futuros governantes.O aluno militante  tem presente que o estudo se destina a habilitá-lo a melhor servir as massas e nunca para se instalar como parasita no dorso do Povo.O aluno militante assume a necessidade de combinar o estudo com a produção,com o objectivo de levar a escola a ser auto-suficiente, para reconciliar a sua inteligência com a mão e adquirir pela prática da produção novas ideias.E fundamentalmente manter viva a noção de pertencer à classe trabalhadora.

O aluno militante encontra-se engajado no combate pela emancipação das classes trabalhadoras com as quais se idetifica.Na sua actividade escolar,o estudo e a aplicação da nossa linha política, ocupam um lugar central. É a linha política da nossa classe que habilitará o aluno a utilizar os conhecimentos adquiridos para o serviço das massas»(S.M)

 

                  Liberdade de pensamento e acção

 

A Liberdade não consiste em fazer aquilo que queremos, mas sim aquilo que devemos.Dentro deste princípio, as escolas são as «frentes»com melhores condições para desencadear a batalha de libertação do pensamento,da livre iniciativa, do trabalho em comum do qual derivam as relações de amizade alicerçadas na mesma cusa política, social e económica.

Neste engajamento na mesma causa é que está a base duma camaradagem que não significa necessariamente a amizade e o conhecimento pessoal, mas identificação com o ideal comum.Ao nível do ensino, nas nossas escolas, no âmbito desta libertação consciencial,temos como tarefa prioritária a guerra contra o obscurantismo.Ele é filho da ignorância de que consequentemente resulta a suprestição,isto é,a explicação dos fenómenos da Natureza pelo poder sibrenatural.A esse obscurantismo estéril tem de a escola opor as realidades objectivas, a verdade científica que há-de entrar na mente pela via experimental, pelo método da teoria aliada à prática, único processo de evitar adesões cegas e abrir a porta do debate, da crítica e auto-crítica só possíveis em espíritos libertados.

Também o racismo foi responsável pela escravidão das ideias e das acções.Partindo do pressuposto da superioridade das raças, as mais «inteligentes» deveriam dominar as outras que assim ficaram submetidas a um paternalismo bloqueador do pensamento e da livre iniciativa.Tudo vinha de cima,do mais alto er do mais forte, desprezando-se o valor do Povo que era temido ,mas não amado.Daí advinha uma repressão desenfreada que inexoravelmente gerou a revolução,o despertar da dignidade das consciências e a luta pela Liberdade que nos truxe uma nova era de relações humanas.Relações que não se baseiam nem na posição social, nem no sexo, nem na raça. «O ponto de partida das nossas relações é a consciência de pertencermos à mesma classe trbalhadora» É a identificação com a mesma causa politico-social que queremos alicerçada sobre a confiança vigilante, sobre a ajuda mútua e sobre a «crítica fraternal», sobre a actividade no seio das massas, na comunhão com o Povo, no diálogo entre governantes e governados.

Nota:Este folheto foi escrito por mim quando era Inspector escolar da Zambézia,contendo  orientação pedagógica  pedida pelos professores,na altura da pré-descolonização.Foi grande  o meu espanto quando a vi difundida pela Frelimo,que não me consultou, por todos os estabele cimentos escolares de Moçambique.Talvez me julgassem frelimista, mas enganavam-se…

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Thursday, September 3, 2009

O batelão do rio Limpopo

         

 

 Em agradável viagem, quase sem dar-se conta,Marcela e Ricardo haviam chegado já  à margem direita do Limpopo,o maior rio da África austral depois do magestoso Zambeze.Vem das montanhas do Matopo, cerca de Joanesburgo e anda 500Km até chegar à barra de Inhampura, no Índico.É uma monstruosa serpente que, quando nas cheias se espraia,  faz das planícies que o bordejam um autêntico mar.Este rio foi testemunha, por volta de 1895, de muito arrojo e bravura de vários oficiais da Armada Portuguesa.Está muito ligado às guerras da Pacificação, foi teatro de muitas escaramuças, pois o Kraal de Gongunhana tinha nesta barreira aquática um fosso difícil de transpor.Nos princípios de Setembro de 1963, data em que Marcela e Ricardo chegaram às suas margens, ainda não existia a actual ponte, pelo que tiveram de atravessar o rio no velho batelão.Marcela ficou empedrada de susto quando viu Ricardo meter o jip ,de um salto, dentro do batelão que os levaria à outra margem onde ficava pouco adiante a cidade do Xai-Xai, apelidada pelos colonos de João Belo.Completa a carga, o batelão foi posto em movimento pelo impulso braçal dos negros que, de tronco nu, o suor a escorrer copiosamente, puxavam os cabos que o faziam singrar,lento e magestoso, sobre as águas lodosas e profundas do rio.E durante este vigoroso esforço de autênticos barqueiros do Volga, eles ainda tinham ânimo para bailar, tripudiar ,entoando cantilenas alusivas aos passageiros em que vislumbravam a possibilidade de obter uns cobres de saguati (gorgeta).Desta vez a inspiração veio-lhe do casal Marcela e Ricardo.Eles tinham uma intuíção,  um faro incrível para detectar aqueles cuja generosidade lhes poderia dar uma ajudinha pecuniária que demonstrava bem a sua  esperteza e sagacidade psicológica. Num ritmo frenético,iniciaram assim a sua salmodiada melopeia:

Bom dia minha sinhora/Bom dia sinhô patrão/Bamo lá,bamo imora/Navigá no batelão/Toda a noite, dia inteiro,/Negro neste combate/Ma ganha pouco dinheiro,/Pricisa de saguate! 

Tudo isto era inédito e encantador para Marcela, neófita em África.Pegou na bolsa e deu um generoso óbolo aos barqueiros negros que esbugalharam os olhos com um saguati tão abonado e se desfizeram em angulares zumbaias de mesureira gratidão.

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Tuesday, September 1, 2009

Moçambique:Sete de Setembro

 

 

 

 

 

 

Kátia, recém-casada, com sérias apreensões viu partir o marido para o  teatro da guerra colonial de Moçambique, após uma breve lua de mel.
Entre o sobressalto de o perder e a saudade de o rever nos braços, fluiram dias cruelmente longos.O que ela nunca pensou é que esta ausência seria eterna!
Decorridos dois meses, recebeu em suas mãos trementes um aerograma do Quartel-General que em seu laconismo dizia:morto em combate o alferes Mário Lucena.Sentidos pêsames!
Resistiu a jovem viuva a uma dor inenarrável!Quis regressar a Portugal,mas a carência de transportes não lho permitiu fazer.
A situação de insegurança em que se vivia deu azo ao pânico que originou uma debandada geral.Daí resultou que não havia aviões que chegassem para tamanha evasão,para o escoamento de tal fluxo humano.
Sair daquele inferno de medos e incertezas era o supremo desejo de toda a gente! Foram vâs as expectativas de que o Governo estabelecesse uma ponte aérea eficaz para a soluão dum problema que afectava milhares de portugueses e que contribuiu para a desgrça de Kátia.Prestes a embarcar,depois de tão agónica e cruciante espera, foi apanhada no vórtice da cruenta hecatombe do Sete de Setembro, aziago dia de infernais pavores e de selvática carnificina, motivada pelo desnfreado racismo que culminou numa truculenta orgia de ódio incoercível,logo chegou a notícia do acordo de Lusaca.
Colhida por esse turbilhão de morte,por essa nova matança de Saint-Barthélemy, era uma das senhoras cujo jovem e formoso corpo se encontrava semi-nu num dos montes de cadáveres recolhidos pelas ruas de Lourenço Marques e empilhados no necrotério do hospital Miguel Bombarda.
Até onde pôde chegar, bom Deus, tão grande ferócia humana!
Foi diante deste terrífico espectáculo que chorou Joaquim Chissano num rebate incontido de compaixão humanitária.
Chorou o lider frelimista e chorariam as próprias pedras à vista de tanta hediondez!
Umas horas antes,aos gritos de pavor deta mulher e de tantas outras vítimas haviam ficado mudos os fusis lusos já ensarilhados na covardia e na desonra,pela criminosa ordemdos bandalhos militares e políticos que impiedosamente os haviam mandado silenciar…

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Sunday, August 16, 2009

Gago Coutinho

 

Gago Coutinho, o Grande Almirante das estrelas do Sul,é uma das mais lídimas glórias nacionais.Esse excelso marinheiro-aviador é o mais qualificado representante das gerações de descobridores e cientistas que fizeram a grandeza de Portugal.No dizer de Sarmento Rodrigues ele é «uma verdadeira expressão do espírito que dominou a gesta do Infante, a representação viva desse tempo glorioso».Como homem, digamos terrestre,nada deve em glória a grandes nomes como Albuquerque, Serpa Pinto, Capelo ou Mousinho;como homem dos mares não há dissolução de continuidade entre ele,e Gama ou Cabral; como cientista e geógrafo supera D. João de Castro que deslumbrou os homens do seu século.Se lermos a biografia do «velho corredor dos mares» lá encontraremos o segredo da sua vida heroica na sua inteligência e sobretudo na sua força de vontade. O grande tribuno António José de Almeida considerou o velho lobo dos mares e o Ícaro das Alturas «uma fonte inesgotável de emoção patriótica».

Gago Coutinho viveu alguns anos em Moçambique ocupado em trabalhos de triangulação e na demarcação das fronteiras do Niassa e de Tete. Homem crente, a mesma Cruz de Cristo que foi nas Caravelas dos argonautas de Quinhentos não faltou nas asas dos aviões Lusitânia e Santa Cruz que em 1922 selaram com beijo fraternal a amizade luso-brasileira. Este Príncipe das Alturas é uma alma gémea do Prícipe do Mar,o Infante D. Henrique.O Infante ensinou os marinheiros a usar o astrolábio, Gago Coutinho,intrduzindo no Sextante um horizonte artificial, resolveu o problema das grandes viagens aéreas que passaram a efectuar-se com uma precisão de rumo trignométrica.Apesar desta invenção,a sua modéstia é um dos aspectos mais apreciáveis do seu multifacetado acarácter. Considerava-se «apenas um navegador».Qundo lhe perguntaram como atravessou a África a pé respondeu com o seu conhecido humorismo: «Como havia de ser? De botas rotas para a água sair à vontade, porque entrar entrava sempre»! Os momentos indescritíveis da arribada a Guanabara foram a melhor recordação da sua velhice.Tão apoteótica foi a chegada ao Rio que o seu companheiro Sacadura Cabral gritou  alucinadamente levado pelo entusiasmo que a todos empolgava: «Eu já não sei se sou português ou se sou brasileiro»! Realmente foi um feito arrebatador! Guerra Junquiro chama-lhe «mais um dia em flor cantado e rezado na História de Portugal«!

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Friday, July 10, 2009

O Burrinho de Prata e de Luar

Rogério Ribeiro Gomes é um poeta sem pressas.Mesmo assim viu esgotada a primeira edição deste livro que «foi feito por mero diletantismo, para íntima satisfação perssoal, para passar mais amenamente o longo e chuvoso inverno de 1979, sem qualquer outra ambição».
Tinha-se apresentado ao público, em 1980 com Rimas Andaluzas.Em 1994 voltou com Murmúrios do Silêncio e com Veredas do Destino. Fez bem,em 1998, decidir-se a trazer à estampa este Burrinho de Prata e de Luar, título que substituiu o original: Rimas Andaluzas «por ser mais consentâneo com o idealismo poético consubstanciado em Platero y Yo (de Juan Ramón Jiménez, Nóbel da Literatura em 1956»)
São 72 poemas que enchem a alma de qualquer leitor sensível à beleza das palavras, quando, como neste caso, brotam  como seiva fecunda e inesgotável.

                    (Crítica de Barroso da Fonte in Poetas e Trovadores)

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Monday, July 6, 2009

Aniversário da Revolução Francesa por Rogério Gomes

                                                                                    Tomada da Bastilha 
 
Vai passar, a 14 deste mês de Julho, mais um aniversário da Revolução Francesa.Data de tanta relevância é digna de ser rememorada, pois marca o início da História Moderna e o fim dos regimes feudais e corporativos, substituídos por um novo sistema social e político criado pela burguesia.
Nesta viragem histórica teve papel preponderante «a arraia miúda», os chamados sans-culottes que, de chuço em punho, atacaram a Bastilha, sacudindo o despotismo real e proclamando o princípio da Igualdade de direitos e o princípio da Liberdade entre os homens.
Para Luis Blanc e todos os liberais e republicanos, a Revolução só teve aspectos positivos, quer no plano político, quer no social,quer no económico.Mas José Maistre não vê nela senão o espírito diabólico e a destruíção de princípios seculares.
Taine,na sua obra Origens da França Contemporânea,toma uma posição eclética que é hoje geralmente admitida: a Revolução trouxe vantagens incontestáveis,mas levou também a abusos e crimes monstruosos.
A Revolução Francesa foi sobretudo um movimento político que visava os princípios da constitucionalidade e da legalidade. E essas duas grandes aspirações triunfaram quando a Assembleia Constituinte elaborou a Constituíção de 1791, segundo a qual as leis não dependeriam mais do arbítio do Rei, mas da Assembleia Nacional. Acabara o Absolutismo , a soberania seria exercida pela Nação.
Do princípio da Legalidade emanou a Igualdade, a Liberdade e a Separação dos Poderes.Os dois primeiros ideais logo ficaram consagrados na Declaração dos Direitos do Homem: o homem nasce livre e igual em direitos. Ora assim sendo, o próprio Rei não é mais que um cidadão, sem honras dos títulos de Sire e Magestade.
Quanto à separação de Poderes, foi também um duro golpe no despotismo da Realeza. A Revolução pôs em prática a doutrina de Montesquieu, pela qual os Poderes legislativo, executivo e judicial passarm a ter orgãos próprios.
Em breve análise, podemos concluir que politicamente a Revolução se fez no sentido de transformar as instituições absolutistas em democráticas, contitucionais e parlamentares.
Socialmente, os resultados da Revolução não foram menos importantes. O povo miúdo algo beneficiou dela, mas a parte de leão,depois das sangrentas arruaças, coube à burguesia jurista, à nova nobreza da toga, (os advogados) que, em privilégios quis igualar-se à Nobreza de espada e nascimenrto.
O triunfo dessa burguesia começou na Constituinte, cresceu na República e atingiu o apogeu no Directório.Triunfou da Realeza, impondo-lhe a Cons tituição e proclamando a República; triunfou sobre a Nobreza, quando a Constituinte promulgou a Declaração dos Direitos do Homem; triunfou sobre o Clero, quando lhe impõe  a Constituição Civil; triunfou sobre o Povo porque se tornou senhora das grandes manufacturas ,monopolizou o comércio e a indústria e acabou com as Corporações medievais.
O Povo conquistara a Liberdade, mas não tinha pão cozido!
Nâo foi menos relevante o papel da burguesia intelectual representada por Voltaire,Bodin e Montesquieu que fizeram com a pena o que «o pé descalço» fez com o chuço.
Culturalmente a Revolução não deixou obra que se visse!…Além de Lavoisier, Carnot e Madame Stael, não houve uma geração de intelectuais famosa como aquela que a precedeu (os enciclopedistas) e aquela que se lhe seguiu -a dos grandes romancistas.A política absorveu totalmente os homens do tempo da Revolução.Sob o ponto de vista religioso ficou marcada com os estigmas do ódio e da indiferença.O Clero foi vítima de violentas perseguições,a Igreja e  as Ordens religiosas foram esbulhados dos seus bens e até o Papa,durante o Império, foi humilhado por Napoleão. Todas estas hostilidades haviam ficado logo patentes na Contituição do Clero.
A Revolução também não resolveu o problema económico, posto que ele fosse a origem do levantamento popular. Foi já durante o Império que se fez a primeira tentativa para equilibrar o Orçamento, mas a derrota de Napoleão, «le petit caporal»,deixou a França na mesma crise financeira em que se encontrava aquando da tomada da Bastilha.
Como todas as revoluções, a francesa, de 1789, teve coisas boas e péssimas,sobejamente conhecidas.
A justiça do Povo é sempre violenta e incongruente porque sempre se fundamenta no ódio e na exaltação política.Todavia, muitas pedras preciosas saíram da ganga revolucionária, entre elas os pulcros ideais da Liberdade e da Igualdade.Pena foi que esta doces palavras,fulcro de toda a Justiça ,fossem escritas com o sangue de tantos patriotas.Nem os mais impolutos, como Robespierre,foram poupados pela guilhotina!…

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Sunday, July 5, 2009

Carta do Sr. Prof. Dr. Pina Cabral sobre o romance «Mártires e Heróis» de Rogério Gomes

Logo que recebi «Mártires e Heróis Sem Glória» li-o de uma assentada,o que estou certo acontecera a todos os seus leitores.
O romance surge-me como obra da maturidade dum escritor que sabe tão bem recriar os lugares onde a acção decorre,porque a eles ficou indissoluvelmente ligado pelo sortilégio de África.
A obra de ficção,porém, revela o talento do escritor pelo realismo com que descreve situações mavórticas que não viveu.Teve que estudar, o que aliás fazem os Mestres das Letras segundo há dias aprendi com o Saramago,prémio nóbel da Literatura.
Num colóquio a que assisti, ele contou à assistência que o Memorial do Convento nasceu num dia em que no terraço fronteiro ao monumento pensou:«gostaria de meter este mosteiro num romance»
Depois veio todo o trabalho de estudar a época,os costumes,os reis, os personagens e a odisseia de erguer, com a morte de mais de 1000 operários aquela mole imensa.
Este tipo de criação não é acessível a todos os mortais, só aos eleitos.
Aprendi também com ele,que o romancista não se limita a colocar em cena os personagens e eles lá seguem o seu destino… Pelo contrário,o personagem vai para onde o seu criador o guia.
Isso nota-se nas deambulações de Marcela e Ricardo ao longo do romance,e nas intervenções dos outros tão bem caracterizados intervenientes.
O português do romance é erudito e revela a cultura profunda que o seu autor aprendeu nos clássicos.Enriquece o nosso vocabulário!
A inutilidade duma guerra,as injustiças e os dramas que acarretou,nota-se que foram sentidos por quem tão bem as descreveu.

              (Carta que o meu ilutríssimo amigo ,já nas mão de Deus, me escreveu pelo Natal de 2001)

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Thursday, July 2, 2009

Homenagem a Nadir Afonso, por Rogério Ribeiro Gomes

Quando assim sai do peito a gratidão,
Límpida como as águas da nascente,
Numa espontaneidade de expressão
Própria de quem amarras não consente,

Não procuremos outra explicação
P’rá  fidalga presença desta gente!
O sentir do seu nobre coração
Aqui o deixa hoje bem patente!

Aqui estamos todos de alma aberta,
Fazendo uma homenagem justa e certa
A um pintor de fama universal,

Que a um poeta mimoso deve a vida
E o génio da sua arte, difundida
 Em telas de beleza sem igual!

Este poema foi escrito por mim num guardanapo de papel durante um jantar de homenagem a Nadir Afonso e que ficou por dizer,pois a família que me acompanhava achou que eram horas de retirar e, com a pressa, não encontrei a chave de oiro que exige uma composição petrarquiana.Ou talvez por causa da pinga do Faustino onde decorreu o jantar…
O Modernismo,devo esclarecer com toda a franqueza,que não o aprecio nem o entendo,quer em poesia quer em qualquer manifestação artística,fora dos grandes corifeus e alguns discípulos de génio que com eles se identificaram.
O Modernismo nasceu nos primeiros anos do passado século,num momento de crise universal em que era preciso conciliar a Teologia com os avanços da Ciência e do Progresso.
Neste intento, esteve na vanguarda o Krausismo alemão, uma filosofia de modernismo religioso de que derivou o modernismo artístico,numa espécie de Krausismo laico.Muitos artistas exageraram de tal modo o pensamento liberal de Krause que caíram num libertarismo artístico, voluntarioso, anárquico e alheio às regras «do bom senso e do bom gosto» que são as leis supremas da arte.E muitos esconderam a sua mediocridade sob esta capa!
Andam por aí poesias, esculturas e pinturas de badalados artistas que as fariam melhor  crianças do Ensino básico.
É esta uma opinião (não haja deturpações!)que nada tem a ver com a genialidade artística dum dos maiores pintores modernistas  destes tempos, tendo nós a supina honra de ser um flaviense!

  (A foto em epígrafe foi citada de serurbano.wordpress.com)

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Wednesday, July 1, 2009

«Veredas do Destino», da autoria de Rogério Ribeiro Gomes

O autor,natural do concelho de Chaves, onde foi professor,voou mais tarde para Moçambique,onde foi inspector escolar, regressando à Pária depois do 25 de Abril.
Tudo isto lembra uma odisseia que, ele, como poucos, descreve com laivos de grande estilista que é, com rasgos de grandes descrições literárias e de factos da vida real que tornam os diversos contos cheios de interesse e que prendem a atenção de qualquer leitor.
Rogério Ribeiro Gomes lida, tal como o nosso Camilo,com o português, fazendo dele um escritor de grande sensibilidade e grande conhecedor e intérprete de personagens de qualquer categoria, cuja linguagem interpreta e encarna.
Nos diversos contos,com início no sítio onde nasceu e foi criado na sua meninice,no «chão da minha infância»,em prosa corrente, clara, límpida, narra redcordações de antanho O mesmo se segue em «Ódio maldito» e na figura do tio Capelas, homem típico do lugar, de indeléveis  e patuscas recordações.
Interessante é o «Pinheiro falante» e o encontro com os morcegos no cabo da mina.
Outra narrativa histórica e real é a da «Chuva de estrelas»de 1933 de que bem nos lembramos.Depois vem a história do «Fuínha» e o conto da «Ruça», a burrinha que lhe pregou uma partida e lhe foi pérfida como o seu primeiro amor…Segue-se o «Baptismo de Fogo», recordando a partida de suas tias para o Brasil e o desastre com a lata de pólvora de caça.
Em «In diebus illis» conta a vida do Seminário e as peripécias que aí o marcaram para toda a vida!
«Venturas por entre lágrimas» é a descrição de diversos acontecimentos que decorreram em África:Xai-Xai, Lourenço Marques , Inhambane e Quelimane.
No livro IV,o último, está o tema «Cangalheiros do Império» onde exprime com dados concretos o triste fim do Impéro Ultramarino ,dizendo tudo da desgraça que daí adveio:efeitos da Descolonização,o 11 de Março, o 25 de Novembro,a Democracia de fachada,a miséria dos funcionários ultramarinos, as reformas chorudas dos Deputados,a inversão de valores que ocorre em todas as Revoluções.
Por fim recorda o 7 de Setembro em Lourenço Marques e as horríveis matanças que fizeram chorar até o próprio lider da Frelimo.   O melhor será ler…

      Nota:
  
 (João Baptista Martins, meu grande amigo já falecido,escreveu esta crítica no Notícias de Chaves, em 27/2/02. Honra a sua memória!)

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Sunday, May 24, 2009

Os 80 anos do Avô

                                              
                                Ao Avô e pai amigo

Comemora hoje o nosso avô 80 anos de vida.Está, por isso, de parabéns.
Nós que somos os seus netos gostariamos, nesta hora, de o felicitar com muita alegria e votos de longa vida.
Todos os netos costumam gostar imenso dos avós.Há qualquer coisa neles; talvez a experiência da vida; tavez a longevidade, talvez a sabedoria que naturalmente faz com que se aproximem de nós com mais facilidade, com mais vontade, com mais simpatia (simpatia pelos nossos poucos anos e compreensão pela nossa inexperiência.)
Nós temos de afirmar uma coisa: nós não gostamos do avô. Nós adoramos o nosso avô!
Temos a certeza que, como se costuma dizer, o avô é mesmo «Pai duas vezes».Para nós, tem-no sido sempre e, temos a certeza, sê-lo-á  para sempre.
É o esteio mais seguro da família (desculpa avó,tu também és!) O ponto fixo onde todos sabemos ter guarida segura em todas as ocasiões.
O nosso avô é uma força da Natureza.Senhor dum sentido de humor inegualável;amantíssimo da família; apaixonado pela avó desde há muitos anos ;capaz de tudo para nos ver felizes;um poço de experiência ao serviço dos netos; o primeiro a querer ajudar nos momentos menos bons que todos já passámos e, bem o sabemos, ainda vamos passar.
O avô tem uma energia sem fim:não desiste; não se queixa; não desarma;tem 80 anos a partir de hoje e parace que tem 13 ou 14.Nunca parou de pensar, nunca há-de parar de fazer o que quer; a vida dele é para nós exemplo a seguir; uma luz imensa que nos ilumina todos os dias; uma luz que jamais se apagará dos nossos corações e da nossas vidas enquanto vivermos.
                 Querido avô, Muitos, muitos anos de vida e muitos, muitos Parabéns!
                                                      És o melho
r!

                                    Os Netos amigos:                                                     

                                                         Ana Oliveira
                                                         Mariana Dimas
                                                         Francisco Chaves
                                                         Rita Chaves

            (Texto com que fui homenageado pelos meus queridos netos,fazendo 80 anos)

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