Uma escola nova para um homem novo
É incontestável que o homem é um «animal político».Perante esta verdade é fatal que a novas concepções políticas correspondam novas concepções pedagógicas.Fez-se uma revolução política ,consequentemente tem de se fazer uma revolução cultural.Esta revolução implica uma luta entre o conservantismo e o progresso, entre o velho e o novo, implica uma luta ao nível da consciência e dos valores morais e culturais.(S.M)
Para se formar um homem novo,para se estabelecer um novo tipo de relações sociais entre os homens tem de se pôr em acção a teoria revolucionária que ,segundo Samora Machel,assenta essencialmente nas seguintes bases:
Luta contra o conservantismo;luta contra os complexos; unidade do Povo na vigilância e no trabalho; militantismo de professores e alunos; democratização do ensino;liberdade de pensamento e acção.
É pois nestas coodenadas que assenta a educação revolucionária. Este tipo de educação está em guerra aberta com a educação tradicional do Povo em que« a superstição ocupa o lugar da ciência» e com a educação colonial,capitalista,despersonalizadora e alienante, na medida em que se pretendia fazerde cada moçambicano«um português de pele preta».
O conservantismo
O conservantismo e um fenómeno psíquico que resulta da formação de velhos hábitos.Consiste na tendência humana para manter o que é tradicional, mesmo sendo mau, como a superstição,o individualismo, o egoismo,o elitismo , o racismo etc.É o que Samora Machel chama «o peso da herança morta» do qual é necessário libertar as consciências.Tarefa difícil que não se faz automaticamente com a mudança das estruturas políticas. Depende duma longa e paciente cosciencilização das massas, do choque entre as forças progressistas e as contr-revolucionárias que, às vezes sinceramente, outras malevolamente, teimam em vestir-se por um figurino já ultrapassado.Daí que a libertação política tenha de ser concomitante com a libertação da consciência para que cada um de nós se refaça do ser social que havia sido destruído por um regimen político alienante dos mais sagrados direitos do homem-o regímen colonial fascista.
E já que agora somos «homens sem tranca na língua e peias na alma»,como disse o grande Miguel Torga; que somos membros duma colectividade consciente,vamos construir a Sociedade que desejamos:uma Sociedade nova onde todos sejamos pessoas e não membros dum rebanho.
Os complexos
Complexos são estados de espírito oriundos de recalcamentos psicológicos.São repressões involuntárias feitas pela consciência, resultantes de várioa factores,como a educação, o sexo, as convenções sociais, a raça,toda uma diversidade de vivências.
Foi Adler,filósofo alemão, quem primeiro nos falou dos complexos de superioridade e inferioridade. Segundo ele, todo o comportamento humano gira à volta destes complexos.Ou há dominssados ou dominadores.Os primeiros estão possuídos do complexo de inferioridade e os segundos do complexo de superioridade.
Ora se nós temos de construir uma Sociedade onde não haja dominados nem dominadores, nem senhores nem escravos, nem explorados nem exploradores,nem raças superiores nem inferiores,temos de dar duro combate a estes complexos. Eles bloquiam a confiança entre as pessoas, destoem a unidade do Povo,a capacidade de livre iniciativa, o trabalho de inter-ajuda,a oportunidadede aprendermos uns com os outros.
A unidade do povo e a educação
«A unidade é a nossa força principal. É a unidade que constrói e consolida a nossa Sociedade.» (S.M.) Unir e consciencializar o Povo,isto é,fazer com que o Povo interiorize alinha revolucionária é «uma tarefa devanguarda» que pertence a todos e em especial à escola. O Povo deve estar unido no trabalho e na vigilância.O Pvo unido jamais será vencido! Esta deve ser uma das preocupações primárias da educação.«É unindo-nos no trabalho que nos unimos realmente.Professores e alunos devem trabalhar lado a lado,em todas as tarefas porque na revolução não há grandes ou pequenas tarefas» (S.M.)
O trabalho é a fonte da riqueza do progresso e avigilância consiste na atenção constante às forças reaccionárias,à agressão idiológica da contra-revolução para que não voltemos à ignomínia do passado.São contra a unidade do Povo os divisionismos étnicos, culturais,linguísticos,tribais ou religiosos.Contra este divisionismo é preciso pregar a unidade moçambicana.É necessário que« a tribo morra para que nasça a Nação» .«No nosso ensino devemos fazer ressaltar a similitude de situações existentes entre toda a população moçambicana» S.M.). «Moçambique não é uma região determinada,uma povoação ou uma província, mas um país enorme com grande diversidade de situações que temos de assumir para sermos eficazes».(S.M) «Nas nossas escolas ,nos bancos da aula,nas casas, nos refeitórios, na produção, devemos esforçar-nos em juntar continuamente os alunos e professores de regiões diversas,a fim de que a partir do convívio quotidiano se percam os reflexos regionais para se adquirir um sentimento e coconsciêcia moçambicanos» (S.M.)
A unidade consolida-se no esforço comum,no conhecimento mútuo, na camaradagem.Só estaremos unidos quando nos compreendermos uns aos outros. Para isso temos de viver no seio do Povo,com o Povo e para o Povo!
Democratisação do ensino
As escolas devem ser centros de democratização e não núcleos de elitismo priviligiado.Todo o cidadão tem direito à educação.Este é o princípio basilar da democratização do ensino cujo objectivo não deve ser outro senão servir as massas populares.
O método de terabalho que assegura efectivamente a democracia assenta no princípio de que devemos aprender uns com os outros.Os professores e alunos devem aprernder entre si e uns dos outros.A aprendizasgem consiste essencialmente numa troca de experiências.A aprendizagem baseia-se no trabalho colectivo para o progresso colectivo.«Não nos interessa terum aluno brilhante e 40 que não sabem, pois, por mais genial que seja o primeiro,sozinho nunca poderá satisfazer as necessidades que temos.» (S:M.)
A educação baseia-se no esforço colectivo,na prática reveladora do que cada um é, na consciencialização do valor de cada qual e das suas limitações, na crítica e auto-crítica das nossas actividades.
A educação é um processo global onde os professores e alunos na sua escola não cumprem a tarefa exclusiva do aperfeiçoamento individual, mas de toda uma Sociedade nova através dum homem novo.«Aquele que estuda incarna a vontade e o progresso de todo o Povo»-diz Samora Machel- pelo que a escola não pode viver dissociada do Povo, da linha política que o conduz e, daí,a necessidade de alunos e professdores serem militantes e combaterem pela vitória dos novos valores democráticos.A escola é um centro de democracia onde se deve preparar e ensinar o Povo para tomar o Poder.Nela se habilita o aluno para melhor vir a servir as massas e não servir-se delas parasitariamente.
O militantismo de professores e alunos
Ser militante é ser participante.Se um professor é um «contrutor de mundos», um plasmador da Sociedade, tem não só de conhecer ,mas participar activamente nas novas teorias revolucionárias que devem enformar a nova Sociedade.Por sua vez, os alunos,se devem ser os continuadores da rervolução, não lhe podem der alheias aquelas teorias.
«Ser militante como prfessdor, não consiste apenas em preparar correctamente as aulas ,explicar claramente a matéria e corrigir com justiça os exercícios.Evidentemente que isso faz parte da terefa do professor,mas não basta.Isso também o fazem os professores burgueses animados de consciência profissional. Na sua essência o professor militante é aquele que ,pelo seu exemplo e pelo ensino,contribui para a formação duma nova mentalidade no aluno.O professor militante é para todos um ponto de referência,uma ilustração permanente do comportamento correcto.O professor militante aprende do aluno e sabe orientá-lo na síntese das experiências e libertação da iniciativa. O professor militante é um elemento activona prática do trabalho produtivo que mobiliza os recursos da Natureza e fornece novas ideias ao homem.O professor militante está consciente das suas limitações e abre-se à auto-crítica e à critica,incluindo a dos alunos.Ele possui no mai alto grau a consciência de pertencer à classe trabalhadora.É um combatente pela vitória dos novos valores,uma alavanca na libertação da inicia tiva criadora dos seus alunos.
«A definição do aluno como militante também será necessária.Embora a tarefa central do aluno seja a de estudar,,isso nada o distingue dum aluno burguês.A concretização dum aluno militante situa-se ao nível dos objectivos e métodos do seu estudo.O aluno militante ,ao estudar, cumpre uma tarefa que lher foi confiada pelas massas para as servir.Nele não pode existir a obsessão mitológica do diploma,a esperança dos altos salários e privilégios, a noção de que faz parte duma elite de futuros governantes.O aluno militante tem presente que o estudo se destina a habilitá-lo a melhor servir as massas e nunca para se instalar como parasita no dorso do Povo.O aluno militante assume a necessidade de combinar o estudo com a produção,com o objectivo de levar a escola a ser auto-suficiente, para reconciliar a sua inteligência com a mão e adquirir pela prática da produção novas ideias.E fundamentalmente manter viva a noção de pertencer à classe trabalhadora.
O aluno militante encontra-se engajado no combate pela emancipação das classes trabalhadoras com as quais se idetifica.Na sua actividade escolar,o estudo e a aplicação da nossa linha política, ocupam um lugar central. É a linha política da nossa classe que habilitará o aluno a utilizar os conhecimentos adquiridos para o serviço das massas»(S.M)
Liberdade de pensamento e acção
A Liberdade não consiste em fazer aquilo que queremos, mas sim aquilo que devemos.Dentro deste princípio, as escolas são as «frentes»com melhores condições para desencadear a batalha de libertação do pensamento,da livre iniciativa, do trabalho em comum do qual derivam as relações de amizade alicerçadas na mesma cusa política, social e económica.
Neste engajamento na mesma causa é que está a base duma camaradagem que não significa necessariamente a amizade e o conhecimento pessoal, mas identificação com o ideal comum.Ao nível do ensino, nas nossas escolas, no âmbito desta libertação consciencial,temos como tarefa prioritária a guerra contra o obscurantismo.Ele é filho da ignorância de que consequentemente resulta a suprestição,isto é,a explicação dos fenómenos da Natureza pelo poder sibrenatural.A esse obscurantismo estéril tem de a escola opor as realidades objectivas, a verdade científica que há-de entrar na mente pela via experimental, pelo método da teoria aliada à prática, único processo de evitar adesões cegas e abrir a porta do debate, da crítica e auto-crítica só possíveis em espíritos libertados.
Também o racismo foi responsável pela escravidão das ideias e das acções.Partindo do pressuposto da superioridade das raças, as mais «inteligentes» deveriam dominar as outras que assim ficaram submetidas a um paternalismo bloqueador do pensamento e da livre iniciativa.Tudo vinha de cima,do mais alto er do mais forte, desprezando-se o valor do Povo que era temido ,mas não amado.Daí advinha uma repressão desenfreada que inexoravelmente gerou a revolução,o despertar da dignidade das consciências e a luta pela Liberdade que nos truxe uma nova era de relações humanas.Relações que não se baseiam nem na posição social, nem no sexo, nem na raça. «O ponto de partida das nossas relações é a consciência de pertencermos à mesma classe trbalhadora» É a identificação com a mesma causa politico-social que queremos alicerçada sobre a confiança vigilante, sobre a ajuda mútua e sobre a «crítica fraternal», sobre a actividade no seio das massas, na comunhão com o Povo, no diálogo entre governantes e governados.
Nota:Este folheto foi escrito por mim quando era Inspector escolar da Zambézia,contendo orientação pedagógica pedida pelos professores,na altura da pré-descolonização.Foi grande o meu espanto quando a vi difundida pela Frelimo,que não me consultou, por todos os estabele cimentos escolares de Moçambique.Talvez me julgassem frelimista, mas enganavam-se…



Mesmo assim viu esgotada a primeira edição deste livro que «foi feito por mero diletantismo, para íntima satisfação perssoal, para passar mais amenamente o longo e chuvoso inverno de 1979, sem qualquer outra ambição».



